Assistindo televisão ‘vintage’: O Almanacco del giorno dopo.

Imagem da Abertura do Programa, mês de Julho. Reprodução/RAI

Já tem um bom tempo que comecei a estudar italiano. Primeiro na faculdade, com um professor que eu admiro demais! Agora, tento continuar sozinha, comemorando cada vez que eu acho que ‘avancei’ em algum aspecto do idioma que está sendo estudado e tentando levar adiante o trabalho que o professor começou.

Uma das coisas que mais gosto, quando tento estudar e aprender algum idioma, é tentar conhecer mais sobre onde aquele idioma é falado. Uma das minhas ‘estratégias’ (se assim posso chamar) é a cultura. Tentar ler, conhecer sobre as regiões, suas tradições, particularidades (política também…). Sou estudante da área de comunicação, então acho que o hábito de querer saber o que está acontecendo também virou uma forma de aprendizado.

Quando comecei a usar essa estratégia, começou com os jornais e portais de notícias. Sigo lendo, quase que religiosamente, os jornais que posso encontrar e o site da agência de notícias ANSA. A compreensão foi melhorando (bem, eu acho que melhorou) e passei a ver televisão. Isso mesmo, comecei a ver o que encontrava da televisão italiana.

Com essa desculpa de melhorar a compreensão, comecei vendo os programas de TV atuais. Só acompanhei com regularidade mesmo os telejornais e uma série veiculadas pela RAI. Mas isso não ficou sendo a única coisa até agora.

Tenho a estranha mania de ver programações antigas da televisão. Toda vez que leio sobre algum acontecimento que tenha sido importante de alguma forma, penso: o que estava acontecendo em determinado lugar nesta época? Felizmente, para alimentar essa mania estranha, existem pessoas que fazem uploads de trechos de programação de vários anos. Vejo algumas coisas dos anos 80, mas gostar mesmo é quando eu encontro horas de programação dos anos 90 e 2000. Se naquele vídeo tem mais de um programa e junto a publicidade, aí é que eu fico feliz mesmo!

Quando você começa a ver ou pesquisar sobre alguma coisa específica, os algoritmos começam a sugerir coisas que seguem o ‘baseado na sua atividade recente’ (nem vigiam, não é?). Eu comecei a pesquisar matérias específicas, sobre assuntos específicos (política, é…) e tinha lá um vídeo de um programa que eu ia morrer sem saber que existiu. Aí eu ficava curiosa e pronto, estava lá a criatura assistindo uma hora de programação do ano de 1991, por exemplo.

Depois, a coisa foi aumentando (ou piorando?) e eu comecei a procurar horas completas de programação. Motivo? Primeiramente, curiosidade. Depois, passei a achar trechos ou jornais de televisão completos com vários fatos que hoje são capítulos importantes da história.

Nessas buscas, certo dia encontrei um link lá no final da lista de sugestões do You Tube depois de ter terminado de ver um jornal de 1994. Eram só sete minutos e o que me levou a clicar foi a combinação nome do programa + a ilustração que estava lá, como a do início do texto.

Assisti. E virou a mania nova vinda da outra mania. Passei a procurar episódios pela internet e fui ‘colecionando’. Pensei: isso é interessante demais! O lado estudante de comunicação também pensando sobre o formato: ‘não é um boletim informativo…será que pode ser considerada uma mini revista eletrônica? Onde vem isso na grade de programação da época?’

E lá estava eu achando a coisa mais maravilhosa do mundo assistir uma senhora simpática ensinar como se faz uma conserva de pepino. Sério mesmo. É um dos meus ‘episódios’ favoritos. O formato é simples de perceber, mas ainda não encontrei algo que defina bem. Quando penso, sempre acho que é uma pequena revista eletrônica.

Depois passei a prestar atenção nos comentários das pessoas. Eram muitos. E vários tinham uma coisa em comum: a lembrança.

“La mia nonna non perdeva una puntata”

Dos comentários, dois motivos das ‘lembranças’ das pessoas reinam absolutos: a lembrança dos avós e da hora do jantar. Também, a trilha sonora da abertura. O programa foi ao de 1976 até 1994, com algumas interrupções longas na exibição em algum período de 1992.

Basicamente, vinha antes do telejornal da noite. Na faixa de horário que a gente conhece aqui por horário nobre. Também vinha depois uma espécie de boletim meteorológico, o ‘Che Tempo Che Fa?’ (que eu adoro a música de abertura). Quando descobri que vinha antes do telejornal da noite, veio logo o pensamento de ‘que legal passava um programa assim nessa faixa de horário’.

Um texto que li sobre o programa diz que ele trazia informações que eram ‘menos úteis’ (DISCORDE AÍ DA ITÁLIA QUEM ESCREVEU, POIS NÃO É NÃO!), e que trazia informações do dia seguinte, como o próprio nome do programa já indica. Seguiu sempre a mesma ordem: Que horas o sol nasce e se põe, que horas a lua começa a aparecer no céu, o santo ou santa do dia e a razão pela qual é santo ou santa, tipo uma pequena biografia. Também tinha pequenos segmentos, que para mim são uma combinação muito curiosa. Dos que vi eram “La Cucina”, “Le Erbe”, “Fatelo da Voi”(a senhorinha ensinando a conserva de pepino minha gente, bom demais), “Le Piante e i fiori”, “Conosciamo l’italiano?” (este aqui de extrema utilidade para esta que escreve) e vários outros.

Durante a maior parte da vida do programa, quem apresentava o programa era Paola Perissi. Vendo os programas que vez ou outra eu encontro na internet (e dou um jeito de guardá-los para mim) vejo ela com todos os estilos possíveis e sem muita invenção para fazer o programa. ‘Buonasera, é isso aqui e isso.’ Fim.

Quando eu digo que para mim é uma combinação curiosa, é que estou acostumada com o modelo comercial do horário nobre brasileiro. Novela das 6, jornal local, novela das 7, jornal em rede nacional das emissoras, novela de novo no horário disputadíssimo das 9 e 10 horas, algum especial ou filme, outro jornal… É a mesma coisa desde sempre. (Se mudar o pessoal acha ruim, sou ciente)

Imagina o ‘respiro’ que era ter isso na programação? A RAI é uma emissora pública, mas, como infelizmente acontece em quase todas precisou se render ao mercado publicitário. É caro demais manter uma televisão. E quando ela é pública, o risco de interferência governamental/de partidos (no caso da RAI e dessa época: a Democracia Cristã que andava nos corredores da emissora) e as incertezas sobre a questão do financiamento. Sempre tem a discussão dos políticos sobre ‘estamos gastando dinheiro demais com televisão’, quando as emissoras públicas tentam ter qualquer iniciativa de plena autonomia. (Olha aí é mantida em grande parte pela taxa que o povo paga, mas a gente quer interferir sim. Não dá? Tá vamos propor uma redução na taxa, o povo tá gastando dinheiro demais com imposto…AHAM)

Daí descobri também, que pessoas da redação do telejornal eram responsáveis por ‘montar’ o programa. Em vários lugares, isso seria considerado uma perda de tempo. Na verdade, lendo, eu vi que o programa surgiu de uma ideia de um dos diretores do TG 1, Emmanuele Milano. Minha gente um dos diretores do jornal da noite ter a ideia (e arrumar mais trabalho) de um programa ‘mais leve’ antes de toda a carga do noticiário do dia? Bom demais! Também é legal observar que o programa estava na época da transição da TV em preto e branco para a chegada das cores.

Também, nas horas de programação que eu pude achar é interessante a coisa do ‘Che Tempo Che Fa?’. Por aqui, estamos acostumados com os boletins meteorológicos como parte integrante dos telejornais. Fiquei pensando ‘tinha um espaço dedicado ANTES do telejornal da noite’. Pouco comum para quem está acostumado com os padrões norte-americanos que o Brasil meio que seguiu.

Nos comentários dos links onde eu acho o programa, sempre está ligado as memórias familiares, da infância, como escrevi antes. Mas no geral eu meio que vejo uma ‘imagem positiva’ das pessoas que viram na época, em algum momento da vida. Para mim ficou a certeza de um acerto indiscutível dos italianos da RAI na grade de programação. O telejornal é importantíssimo, mas antes de vir com os blocos lotados de informação, que nem sempre são muito animadoras, deveria ser bom ter um Almanacco del giorno dopo mostrando algo que talvez eu não soubesse, não tivesse pensado antes e que talvez me deixaria pensando até que eu fosse procurar saber.

A intenção foi sensacional! Antes dos ‘fatos mais importantes’, vamos colocar um sopro de ar fresco na grade, dizer as pessoas que tal santo foi canonizado por causa de tal acontecimento na vida. Que eu poderia colocar alho para perfumar a conserva de pepino, que vai bem com uns três acompanhamentos diferentes. Amanhã o dia é mais curto! O Sol vai se por mais rápido e a noite chegará mais cedo! Era chegar em várias camadas de pessoas e com linguagem ainda mais objetiva, passar alguma coisa que agregasse do ponto de vista de construção de saber que não ficasse limitado só a camada ‘mais instruída’ das pessoas. De novo, o comentário de ‘minha família se juntava para ver esse programa, meus avós, meus pais, irmãos e irmãs’ sendo a única reclamação a das crianças que queriam ver desenho na emissora concorrente.

Até mesmo as crianças da época, hoje adultos, dizem em comentários que mesmo querendo ver os desenhos na concorrente (bem Silvio Santos colocando desenhos da Disney BEM NA HORA dos jornais e da novela, ah agonia) dizem que as imagens da abertura e a música, encantavam. (Outro acerto dos italianos em matéria de televisão: trilhas sonoras!) Até as crianças chateadas paravam 15 ou 30 segundos para ver um aspecto: a abertura. Para mim, é aquela coisa: você não podia gostar do programa todo mas algum dos quadros poderia prender você por ao menos um minuto.

Sei que isso em emissoras comerciais, sem chance. No modelo brasileiro de radiodifusão? Nem sonho! Mas seria bom demais ver um formato parecido com esse por aqui!

Para quem tiver alguma curiosidade depois que conseguiu (a vitória) de ler este texto até o fim e ficou pensando no programa tipo ‘seria bom ver como é isso aí…’ Segue um trecho do episódio de 14 de Agosto de 1978, isso mesmo! O EPISÓDIO da senhorinha que ensina a conserva de pepino. (Começa em 5:35)

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